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    6/21/2006

    PUTZ! INVERNO!

    Bah, já trocou novamente de estação e eu não postei nada - nada! - nos últimos três meses. E eis que chegou o inverno, companheiro inseparável do Rio Grande, trazendo consigo as roupas pesadas porém elegantes, as massas, os vinhos, o sono e os quilos a mais na balança. Isso merece um poema! Abraço a todos, e, antes que eu me esqueça: GRÊMIO CAMPEÃO GAÚCHO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! CADÊ OS DIAMANTES?
     

     

    INVERNO 

     

    A melhor parte do ano

    Já passou

    A melhor parte da vida

    Já se foi

    Envelheço

    Enrijeço

    Entristeço

    Se pudesse eu pagar

    Pagaria qualquer preço

    Para ser do que sou hoje

    O inverso, o avesso.

     

    Sopra vento enregelante

    Já geou

    Chata chuva fina fria

    Vai nevar

    Zero grau

    Zero vida

    Absoluto

    Todas flores se fecharam

    Todas folhas já caíram

    Toda vida meio morta

    Todavia, sobrevivo.

     

    Sem calor próprio

    Sem amor próprio

    Conservado pelo clima

    E pela baixa auto-estima!

    3/19/2006

    FIM DO VERÃO

    Último fim-de-semana do verão 2005-2006. É sempre lamentável despedir-se dessa estação, até porque o frio aqui é pra valer mesmo. Mas por outro lado, o inverno é parte essencial de nossas vidas. E tem seus aspectos bons, também. Fora que combina bem mais com o novo visual do blog, né?
     
    Choveu muito sábado e domingo, que é hoje. Olho pela janela e não vejo mais os prédios da quadra vizinha: a neblina é densa e parece anunciar que o outono vem com tudo, e não apenas no calendário. 
     
    Assim seja. E pra "comemorar" o fim do verão, adivinha... sim, um poema. Critiquem, por favor. Hasta la vista...
     
     
     

    NOITE SERENA

     

    Noite de quinta e ela se foi,

    Serena.

    Barzinho lotado, ela foi sem voltar-se sobre os ombros.

    Mais um chope, um só mais, que sozinho não tem graça.

    Céu estrelado, olhar distante...

    Ela foi, pequena – bem menor que meu assombro.

     

    Nuvens porém nos olhos.

    As árvores na praça balançam,

    Brincam?

    Os ramos e as folhas.

     

    Discutir a relação –  ramos e folhas desabam

    Inda verde a maioria.

    Entender-te eu preciso -

    Calafrio me faz tremer,

    É o vento que me esfria?

     

    Palavras sem parada: tu te sentes deprimida,

    Queres mais é liberdade

    E aproveitar a vida.

     

    Pequena sereia, que foi-se, serena como a noite.

     

    Algo me diz que o verão acabou

    Há menos de dez minutos.

    3/12/2006

    ETÍLICAS

    Fechando um dos raros fins-de-semana em que não me emborrachei, uma homenagem ao álcool, meu companheiro de longa data.
    Aos que me conhecem: não se preocupem, logo voltarei à ativa. Esse fíndi foi só um acidente de percurso...
     
     

    ÉBRIO

     

    Ando torto pelas ruas;

    Horas nuas, madrugada.

    De calçada em calçada

    No encalço da lua;

    No acender das luzes a contar estrelas –

    Posso vê-las: cruzes, caras,

    Gêmeos, grêmios mil.

    Formas diversas, controversas,

    Deformadas

    Vítimas da mente febril

    (a pureza é infantil).

     

    A noite é o cenário do imaginário louco

    Que pouco a pouco me distrai e

    Dia a dia me destrói.

    Eis um corpo que cai mas não dói

    Um corpo bêbado estendido no chão

    Eis um homem sem função –

    Um homem ou um cão?

     

      

     

     

     

     

    BÁLSAMO

     

    No telejornal da manhã

    Más notícias do Irã:

    Bomba atômica.

     

    A política econômica

    Provoca recessão.

    Preocupação: seca no Maranhão

    E enchente na Bahia.

     

    Meu chefe mal dá bom dia

    E já parte pra cobrança;

    A mulher reclama da criança

    E proíbe-me o futebol

    (Viva o colesterol!).

     

    O sistema, essa droga de sistema

    Toda hora dá problema

    E não me deixa trabalhar

    (E o tempo passa devagar, devagar...

    Haja nervos pra aguentar!).

     

    Mais um dia de pressão,

    Todo dia essa pressão.

    O mundo sem salvação

    (Melhor nem ler a Veja).

     

    Mas agora são seis horas

    Nada vai me atrapalhar

    Eu só quero é ir pro bar

    Degustar minha cerveja!

    3/7/2006

    VERSOS PARA VOLTA ÀS AULAS

    No ritmo de volta às aulas, minha indignação com o mecanicismo letivo e o império da decoreba. Aff!
     

     

     

    VÍCIOS

     

    Gramática.

    Dramática.

    Conselheira enigmática.

    Esfinge de papel.

     

    Quatrocentas páginas misteriosas como a morte.

    E por que?

    Ou será

    Por quê?

    Pouco importa o porquê

    Porque importa o aprender (irônicas reticências).

     

    Bom dia, Dona Norma,

    Desprazer em conhecer,

    Me desculpe pelos vícios.

    Vai me devorar por causa duma próclise?

    VERSOS CRIADOS EM NOITE DE INSÔNIA

    PRIMEIRA VISITA

     

    Era agosto de 80 e havia algo errado.

    Tudo quieto, parado, parado...

    Excessivamente normal.

     

    Então decidi nascer –

    Coisa muito natural –

    Mas olha quem veio me ver:

    Um anjo velho e caduco

    Lindo, jeitão de maluco –

    (O mesmo de Carlos Drummond?)

     

    E disse-me o anjo com bafo de bira:

    “Vai, guri, te vira,

    Vai viver o que Deus te programa;

    Vai que esse mundo te ama,e não pouco!

    Mas por muito favor, por amor ao teu Criador,

    Jamais!

    Jamais deixe de ser um drama.

    Jamais deixe de ser um louco!”

    2/14/2006

    Nowadays

    nowadays

     

    Como há gente fraca nesse mundo...

    Gente que grita, bate, briga, late

    Perde o controle num milésimo de segundo.

     

    Estúpidos!

     

    Gente sem argumento,

    Gente mal-educada.

    Gente moderna estressada

    (Efêmera vida-inferno estressante).

    Agridem a si e a tudo

    Agridem a todos os outros:

    Ao próximo e também ao distante.

     

    É a lógica do filme de ação

    A revolta da era do chip

    É a nossa civilização

    (mais parece um videoclip)

     

    É o fim do que é racional

    E da luta entre o mal e o bem

    Só o primeiro é que resta afinal

    Exceções muito raras se tem

     

    Por favor, não grita comigo.

    Calma, por favor, calma!

    Eu também me enxerguei nesses versos!!

    Calma, muita calma, e por favor,

    Engole tuas angústias.

    Esquece, ninguém está aqui pra te ouvir desabafar,

    Eu não tenho a menor intenção de te ajudar, pára de gritar,

    Reprime teus medos, esconde teus segredos,

    Por favor,

    Cala tua boca!

     

    (A maldade é humana, “a humanidade é desumana”)

    (A vingança vinga, a esperança desespera)

     

    (O poema é uma bomba, não critica que eu explodo).

    POETAR

    POETAR

     

    Se escrever é uma arte, então arteiro sou

    Pois cometo minha escrita como quem apronta uma.

    Arte feita, artefato de ousadia irresponsável

    De criança que desponta e de adulto que se esconde

     

    Refúgio do ego e palco do id

    Quem escreve decide nem quem nem aonde

    Quem escreve não sabe a matéria ou o tema

    Quem escreve não é o escritor

    Escritor é o próprio poema.

    1/20/2006

    POEMA DE SAUDADE

    Esses versos nasceram de uma reflexão: hoje em dia, é muito mais fácil sentir falta de algo ou de alguém do que no século passado, e é tudo culpa da tecnologia. Provo.
     
    Essas máquinas digitais, por exemplo: as pessoas tiram fotos alucinadamente, memória há sempre de sobra, depois salvam no PC e pronto - fotos e mais fotos e mais fotos para lembrar de momentos agradáveis que, inevitavelmente, não se repetirão. E assim é também com as filmadoras, os celulares e outros apetrechos que existem por aí.
     
    Com o que se conclui que a tecnologia contribui muito para o sofrimento do homem do terceiro milênio, o que se pode comprovar com as caixas postais sempre lotadas de e-mails inúteis que nos levam à loucura.
     
    Mas eu falava de outra coisa: a saudade. Sim, porque antigamente, sem os recursos avançados que ora conhecemos, o tempo resolvia uma grande variedade de problemas sentimentais. Isso devido à nossa memória, que vai desvalorizando aos poucos (mesmo que contra nossa vontade) as pessoas/fatos/sentimentos que nos perturbam, e o verbo perturbar aqui pode significar uma infinidade de coisas. Hoje, a memória é alimentada por esses instantâneos eletrônicos, sendo muito mais difícil ao homem livrar-se dessas amarras que o destino nos proporciona, às vezes.
     
    Pra finalizar, uma confissão: esse assunto merecia mesmo era uma crônica. Mas quando tive a idéia de abordá-lo o relógio já avançava pela madrugada e meu braço doía por causa da digitação contínua do horário comercial. Assim, para chegar a um meio-termo, resolvi fazer um poema, coisa que até dá mais trabalho quando um verso insiste em não sair, mas exige menos esforço físico. Ei-lo, à espera das críticas de meus cinco leitores.
     
    P.S.: Coisa chata e sem nexo é explicar poesia. Mas eu tinha que escrever isso. Vai entender.
     
     
    IMAGENS
     
    Eis que
    Te vejo a sorrir.
    Pronto!
    Num passe de mágica, tudo volta:
    Pobre de minha memória!
    Pobre memória que,
    Ativada, te elogia.
     
    Sorrio por dentro, feliz-infeliz,
    Sorrio por dentro mas algo me diz
    Que devia chorar, na verdade.
    E logo em seguida sou só saudade,
    Assim todo dia, assim todo dia...
     
    Por que remexo nesses arquivos?
    Maldita memória que me auto-denuncia!
     
    Maldito seja o inventor do videotape.
    Maldito seja quem criou a fotografia.
    1/8/2006

    Breves considerações seguidas de versos

    Pois é, ficar em casa num sábado à noite de alta temperatura só podia dar nisso: versos deprê. O legal é que escrever coisas down não me deixa deprimido, pelo contrário: é um ótimo passatempo, muito lúdico, ainda mais se comparado ao Supercine.
     
    Parece que estou me justificando, né? Pois bem, acho que estou mesmo, já que acabei não gostando muito do resultado final. Não cheguei a achar ruim, mas esperava produzir algo melhor. Acho que o calor me atrapalha. Ou seria a cerveja? (A falta dela, no caso)?
     
    Bom, quem tiver disposição, leia - meu público médio são cinco leitores - e opiniões/comentários são sempre muitíssimo bem-vindos, especialmente se for pra criticar, OK? Afinal, preciso, um dia, aprender a escrever direito.
     
     
     
     

    SOLO

     

    Eu gosto da solidão.

    Na janela escancarada

    O vento da madrugada;

    Cigarro, cinza, cinzeiro

    E um livro por companheiro.

    (desligo a televisão)

     

    Etílica solidão.

    A noite tem cheiro de vinho

    (a noite de quem é sozinho

    transforma-se sempre em bebida)

    A noite de toda uma vida:

    Alcoólica solução.

     

    Eu fico com a solidão

    Eu vivo minha loucura

    Eu fico com meu violão

    Eu vivo literatura 

    Eu vivo na solidão

    Como se fosse normal

    (se é que o normal existe).

    Eu gosto da solidão

    Adoro sentir-me mal

    E amo sentir-me triste.

     

    Eu gosto da solidão

    E dessa melancolia

    De minha vida inativa.

    Degusto a solidão

    Com sua sensaboria

    E falta de expectativa.

     

    Só resta-me a solidão.

    Eu fico na solidão

    Muito mais do que gostaria.

    Eu fico na solidão

    E não ficar não poderia:

    Eu fico na solidão

    Pois não tenho alternativa!

    12/26/2005

    Mais poesia

    Fim de ano, fortes emoções no ar e na alma (não só por ser fim de ano, claro), resultado: alta produtividade de poeminhas bregas. A exemplo dos últimos, segue mais um emocionante melodrama versificado:
     
     
     

    SENTIDOS

     

    As coisas que tenho pra te dizer

    Não cabem num telefonema.

    Quem dera coubessem num verso,

    Numa estrofe ou num poema.

     

    O que sinto não tem síntese:

    Deve ser dito, redito,

    Bem dito.

    O silêncio é a antítese

    Se o que se sente é bonito: (aflito-bendito-infinito)

     

    Por isso é que te digo

    Por isso é que te repito:

    O que tenho a te dizer

    Não cabe num telefonema,

    Numa peça de teatro ou de cinema.

    O que tenho a te dizer não cabe

    Num transatlântico,

    Nem no Índico

    Nem no Pacífico.

     

    Mas mesmo que devagar,

    (Repetindo, parando,

    Te ouvindo),

    Basta agora começar

    Que haverá uma saída.

    Pois o que tenho pra te dizer

    Certamente há de caber

    No resto de nossa vida.

    12/21/2005

    Mais versos

    THE END

     

    No fim da jornada

    Um erro. Derrota.

    Ao grande idiota

    Já não resta nada.

     

    No fim do caminho

    A ponta da lança

    (o coração cansa

    e perece sozinho).

     

    No fim disso tudo,

    O nada.

    O enfado.

    O entediado e triste fado

    De desamor

    Com gosto de quase,

    De dia encoberto.

    Um quase tão certo

    Que amarga o sabor

    (pois foge quando tão perto

    o prêmio do vencedor).

     

    Mas certezas, quem procura sempre as encontrará:

    Certeza, agora, inda há

    A de que nada voltará a ser

    Como outrora -

    O sonho jogado fora

    Em troca de vã promessa!

     

    Eu sei que a hora é essa!

    Não posso mais me deter!

    Não há mais o que fazer -

    Daqui estou indo-me embora!

    12/15/2005

    UM POEMINHA ROMÂNTICO (BREGA, EU DIRIA) - E POR QUE NÃO?

    DIFERENÇA
     
    Aqui uma saudade.
    Aqui um vão.
    Toda noite em vão contigo sonho.
    Sonho vivo que tu és
    Que não vivo
    Vivo em vão.
     
    Tu oceano, eu grão -
    Eu com Morfeu: nós: ficção.
     
    Mas meu sonho um dia
    Acorda e descansa
     
    Aqui uma esperança,
    Aqui uma saudade.
    Tu és realidade...
     
    Eu não.
    11/16/2005

    CRISE DE IDENTIDADE

    Sinceramente, não gosto muito desse poema. Acho adolescente demais. mas às vezes bate essa sensação mesmo, fazer o quê... Então, aí vai:
     

    EU OUTRO

     

    Cansado, sem sono e só

    Perdido na noite outonal

    Reviro gavetas em busca

    De algo que já virou pó.

    Procuro algum ideal

    Daqueles que outrora já tive

    Um algo qualquer que me diga

    Que o mesmo em mim inda vive.

     

    Cadê o garoto de idéias e planos

    Cadê os meus curtos anos

    De efervescência,

    Cadê minha adolescência

    Cadê, a mim mesmo reclamo.

     

    Pois que assim transformado

    Não creio haver melhorado:

    Se hoje mais bem-resolvido

    Também mais entristecido,

    Adulto agora me chamo.

     

    Um homem completo é o que vejo no espelho

    Um homem ficando velho

    Um homem que não conheço;

    Mas outro é o que não esqueço -

    O adolescente que amo.

    10/5/2005

    MAIS VERSOS

    INSÔNIA

     

    Os bons dormem serenos

    Na última noite de inverno.

    O vento os embala, bem menos

    Gelado, já menos, já menos, mais terno.

     

    Os bons sempre dormem sem dor.

     

    Mas eu, encurralado por

    Uma avalanche de memórias

    (memórias memórias memórias memórias)

     

    Confusas

    Contentes

    Culpadas

    (contraditórias)

    Eu, de repente dormindo,

    Logo em breve desperto,

    Eu, pleno frio, descoberto

    De mim mesmo, por

    Mim mesmo

    Descoberto, dor

    Mim mesmo

    Descoberto desdormindo,

    Eu, chorando-sorrindo sorrindo-suando

    De olho fechado

    Rosto fechado

    Olhos abertos

    Eu, frio, descoberto,

    Eu:

     

    Não quero.

    Não posso.

    Não devo.

    (esqueça!)

    Não posso não posso não posso não quero.

    Não devo.

     

    Mas lembro.

     

    {Lembro lembro lembro durmo lembro lembro lembro durmo lembro}

    Durmo durmo

    Lembro

     

    (O primeiro dia da primavera nasceu).

    O inverno se foi... mas e eu?

    9/27/2005

    POEMAS DE TRABALHO

    UM ACRÓSTICO

     

    Todo dia, todo dia

    Rotina robótico-repetitiva:

    Acorda

    Bate o cartão

    Assina teu ponto

    Labuta, sua, luta, faz

    Horário extra, ordinário! Pronto:

    Outro dia após o outro.

     

     

     

     

    GRATIFICAÇÃO

     

    Sem trabalho que se é?

    Que se tem sem ter trabalho?

    Muito pouco, quase nada

    Pois se é o que se faz.

     

    “Sem trabalho não sou nada

    Não tenho dignidade”,

    Pois se o corpo está parado

    Na cabeça não há paz.

     

    Meu trabalho me consome

    Mas meus sonhos de consumo

    Me conduzem sempre avante:

    Homem cem por cento aço

     

    O trabalho às seis se encerra

    Eu só quero ir pra casa

    Encontrar quem lá me espera

    Encontrar-me em teu abraço.

     

    Inspirado em “Música de Trabalho”, de Renato Russo.

     

    9/13/2005

    POEMA BOBINHO PARA SEMANA DE CHUVA

    DIA DE SOL

     

    Nuvens negras, vão embora

    Por favor desapareçam

    Do azul de minha terra.

    Vão embora, nuvens negras

    Vão embora por favor

    Nessa tarde que se encerra.

    Negras nuvens, dêem tempo,

    Trégua ao choro que se vem

    Derramando desde quinta.

    Dêem tempo, dêem espaço

    Para a luz e o sorriso

    Que mais bela a vida pinta.

     

    Venha logo, astro-rei

    Para afugentar o cinza,

    Aquecer os corações,

    Para iluminar a alma

    E secar as avenidas.

    Todo o sábado precisa

    Da presença de você.

    Venha logo, astro-rei

    Para tudo transformar:

    O dia, o céu, as gentes.

    Todos, todos eles querem

    Todos eles querem muito

    E definitivamente

    Um dia de sol.

    8/30/2005

    A Jornada do Brasil Bom

    Cara, semana passada estive, pela primeira vez, na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Incrível. Bem preparado que eu estava, ainda assim me impressionei com a grandeza do evento. Milhares e milhares de pessoas, falaram em cerca de vinte mil, vindas de incontáveis cidades, do Rio Grande, do Acre e da Bahia, do Paraná, de São Paulo e do Rio, de todos os cantos do país, reunidas para discutir literatura. Isso é positivamente inacreditável, acho que só no Brasil mesmo. E discutir literatura com quem? Ora, com gente de renome internacional e com imortais da ABL: J. Gaarder, J. Ubaldo Ribeiro, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola Brandão, Chico Buarque, Ana Maria Machado, outros menos conhecidos do grande público, mas igualmente brilhantes, como Alcione Araújo, Júlio Diniz, Nelson de Oliveira e Luiz Vilella, e ainda intelectuais não diretamente ligados à literatura, como Werner Schunemann, Lobão (que conseguiu uma foto comigo, notem), Walmor Chagas... (ufa!). Sem falar dos doutores e PhDs vindos de Brasil, França, Itália, Espanha e Portugal. Uma maratona de cursos, debates, palestras, oficinas, shows, apresentações teatrais, comunicações, exposições, sessões de autógrafos, entrevistas, seminários...
    E crianças, muitas crianças, de inumeráveis escolas de toda a região. Crianças brincando, correndo, comendo, bebendo, ouvindo, falando, pedindo autógrafos, ajuda e informações, lendo e comprando livros.  Essa parte, aliás, também excelente: havia desde as edições de luxo, grandes, brilhantes e com capa dura, até as ofertas nos sebos por quinze, dez, cinco e até três reais (adivinha se eu resisti a elas...).
    Em suma, a Jornada é um belo exemplo de Brasil. Representa um Brasil que funciona e dá certo. Um Brasil inteligente, bem planejado, organizado. Um Brasil intelectual, mas não elitista, um Brasil democrático e culto, charmoso, cosmopolita e consciente. Um Brasil sem Brasília, sem partidos políticos, sem mensalões e sem gente inescrupulosa. A Jornada de Literatura é o ícone da utopia brasileira possível, possível porque já existe, de dois em dois anos, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul.
     
    Longa vida à Jornada Nacional de Literatura!
    8/19/2005

    Um poeminha pra vocês

    LIBERTAS

     

    Eu não quero a liberdade dos homens.

    Eu não quero a liberdade dos homens.

     

    Essa toda maquiada

    Escondendo-se de quê?

    Eu não quero liberdade de terno

    E gravata, ainda que tardia,

    E relógio quadrado de ponteiros dourados.

     

    Eu não quero. Eu não quero.

     

    E também rejeito a liberdade

    Em prisão domiciliar

    Eu não quero me casar

    Eu ão sou propriedade.

    Eu preciso trabalhar

    É honroso trabalhar, mas melhor

    É a liberdade.

     

    Eu quero a liberdade de correr.

    Eu quero a liberdade de brincar.

    Eu quero a liberdade de gritar, louco, louco,

     E de tomar banho de chuva e brigar jogando bola.

    Eu quero a liberdade livre, de ser feliz,

    Existir.

    Eu quero a liberdade, não a dos homens.

     

    Eu quero a liberdade das crianças.

    Crônica

    REUNIÃO DE FAMÍLIA

     

    Já era quase dia quando uma de minhas tias, acho que a Letícia, sussurrou; e todos ouviram, e os que não ouviram adivinharam, porque queriam e precisavam ouvir, faltando apenas quem dissesse, a frase que enfim retratou o sentimento unânime.

    - Pelo menos, acabou o sofrimento...

    Àquela altura, só havia mesmo familiares no local, com uma, talvez duas exceções. Os amigos de meu avô, antigos demais para resistirem à demora da noite, tinham já se recolhido. Certos eles: o tédio reinava absoluto, com o agravante do frio, comum às madrugadas de agosto.

    Meu avô devia estar bem à vontade, esticado no caixão, exatamente no centro da pequena capela (pelo menos era o que aparentava seu rosto tranqüilo) – ele que sempre fora o centro das atenções, dentro e fora do ambiente familiar, devido ao seu jeito irônico, extrovertido e muito autêntico, o que lhe causou alguns problemas em vida e lhe garantiu uma pequena cota de desafetos, os quais, aliás, fizeram-se todos, sem exceção, presentes no decorrer do velório; o finado, a princípio, estranhara, mas logo compreendeu o nobre gesto e não mais se incomodou, afinal, contra ele, ninguém nada mais podia. Essa última idéia lhe fez sorrir.

    É ainda necessário dizer que o protagonista fumou durante muitos anos e  padeceu durante alguns meses por problemas pulmonares crônicos. Um inverno inteiro no hospital, noites e noites de vigília, o auxílio alternado de filhos, filhas, genros, noras e netos, até a noite em que seu corpo quase octogenário entregou-se. Por isso a expressão de alívio de tia Letícia; ela, que na verdade apenas pensara alto, chegou a arrepender-se de sua fala por um breve momento, porém, diante da concordância muda de todos, deu-se o direito de emendar um suspiro longo, tão longo quanto a vida e a agonia de seu pai.

    O problema é que Seu Vitório, que era o nome do falecido, gostava muito da vida, a ponto de surpreender a Medicina por sua capacidade de extrair oxigênio de um ar cada vez mais rarefeito para seus falidos pulmões; resistência característica dos descendentes imediatos dos primeiros imigrantes italianos, que continuaram a desbravar o território gaúcho em busca do que prometia ser uma vida melhor. Lembro do nono me contar, quem sabe pela centésima vez, e cada uma mais detalhada que a outra, e eu cada vez mais duvidando de alguns desses detalhes, sua migração do interior de Caxias do Sul para a então novíssima Boa Vista do Erechim, onde conheceu a miséria e a Srta. Rosa, tão antagônicas entre si que casou-se com esta e livrou-se, mais tarde, daquela; o casamento, por sua vez, levou-o a nova migração, desta vez para o interior de Alfredo Chaves, onde abriu uma ferraria, ofício que desenvolvera em seus últimos anos de solteiro; mudança puxada por carroça, casa levantada com a solidariedade, palavra então especialmente necessária e infinitamente mais praticada e melhor compreendida, dos novos vizinhos. Empolgava-se ao lembrar do gerador de energia elétrica que instalara em sua microscópica empresa e que servia também para garantir a luz, a moral e o decoro nos bailes da comunidade. Seduzido pela tecnologia, Seu Vitório organizou o povoado num movimento que culminou com a chegada da energia elétrica ao local, um avanço notável para a época e, segundo seu depoimento, invejado pelos vilarejos dos arredores. Por tudo isso, por essa sua intensa atividade, por esse empreendedorismo, por essa relação de confiança que mantinha com a vida, acho que meu avô não gostou, ou pelo menos não concordou com o alívio geral da família. A nona, que conhecia seu marido melhor do que ninguém, também percebeu a insatisfação do falecido, afinal seu rosto revelava uma grande e reprovadora decepção, não sei se com a morte ou com nosso comportamento, mas o fato é que com isso a nona pôs-se a chorar copiosamente. As filhas acudiram em abraços, numa cena que daria um belo retrato, não pelo momento de união, o que entre elas não chegava a ser raridade, mas pela tristeza, pelo silêncio, elementos estranhos às quatro extrovertidas e tagarelas irmãs. Na porta, meu pai e meu tio Adelmo, o mais velho, aguardavam a chegada de Augusto, o mais jovem e o orgulho da família. Era ele o que morava mais longe, o que tinha mais dinheiro, talvez mais cultura e certamente o que tinha mais influência nas decisões em grupo. E todos esses atributos são verdadeiros, porque a expressão do cadáver do patriarca se alterou para melhor quando de sua chegada. Graças a ele, lembrei então, nossa família tivera, no início daquele ano, seu último grande momento de celebração coletiva: duas semanas em sua casa de praia - o nono, a nona e todos os filhos com suas respectivas famílias, uma alegre balbúrdia no litoral catarinense, diriam uns, um exemplo de convivência harmônica, diriam outros, mas haverá sempre quem diga, uma confusão sem tamanho, verdadeira visão do inferno, e nenhum dia de chuva para esfriar a animação barulhenta que por aquelas semanas fez-se inabalável. Naquela oportunidade, fora visível a felicidade do casal de anciãos; ela, aliás, jamais voltou a gargalhar com tamanha intensidade, pelo menos não que se tenha notícia. Agora, ela se pendurava no pescoço do recém-chegado Augusto, o qual procurava manter a serenidade que devem ostentar os líderes, enquanto sua mãe chorava. E como chorava. Muito. Tentei imaginar a avalanche de lembranças que devia estar a abalar seu espírito naquele momento, depois de mais de meio século de amor, convivência e tolerância e, pela primeira vez no velório, fiquei de fato triste. Envergonhado pela constatação, sabendo que o momento e o meu subconsciente exigiam tristeza profunda e ininterrupta, saí e fui dormir. Voltei apenas quando era quase a hora do enterro.

     

                                             ************

     

    Um amigo da família ofereceu ajuda e eu aceitei de pronto. O nono sempre fora pesado e, em conjunto com o caixão, tornava-se uma carga difícil para apenas seis alças. Logo o exemplo foi seguido e mais gente correu a substituir os filhos e netos que bufavam, última demanda do Seu Vitório, mas desta vez, espantou-se o velho, pela primeira vez na vida, ou melhor, na morte, ninguém resmungava. Apesar dos oferecimentos, Augusto, mesmo visivelmente cansado, preferiu seguir em frente, ao contrário dos dois homens seus irmãos. Talvez o primogênito quisesse demonstrar uma derradeira gratidão a seu pai, que suportou fardos bem mais pesados em nome do sucesso do filho. E deu certo, porque vi o orgulho de novo estampar-se na cara de meu avô, e a feição de quem dá quitação a uma dívida boa de se receber; se pudesse ele diria, esse é o meu filhão, não foi em vão que ampliei, com dívidas e dúvidas, minha ferraria, e depois, mais endividado, fi-la uma pequena metalúrgica, que aos poucos cresceu e me deu dinheiro para sustentá-lo e também aos outros irmãos, é verdade que estes me custaram menos, mas ficaram os dois de posse da empresa, a qual infelizmente mais tarde foi à falência, apesar de tê-la eu mantido por tantos anos com sucesso, mas fazer o quê, os tempos mudam. Ou então eu deveria ter feito mais filhas no lugar de filhos, elas sobreviveram o suficiente para poderem casar, incrivelmente casaram, porque feias de dar dó, mas casaram e pronto, arranjaram-se, e repetiria o velho se lhe saísse a voz, esse é o meu filhão.

    Eu e meu tio Augusto fomos os primeiros a chegar à cova que seria a morada final de meu avô, e então me dei conta, num estalo, naquele momento que o destino nos reservara, que eu, entre os netos, poderia ser também um augusto, um augusto sem dinheiro, um augusto de tênis (eu tinha ainda idade para desprezar sapatos, mesmo em dia de funeral), um augusto iniciante e com pouco, porém algum status de orgulho da terceira geração familiar, o mais velho entre os homens e provavelmente o preferido do nono, segundo opiniões diversas que me vinham à lembrança naquela hora. Tive essa impressão reforçada quando, depois dos ritos preliminares, alguém sugeriu que se abrisse o caixão por mais uma vez, como forma de última e ampla despedida, o que Augusto e eu, após uma imperceptível troca de olhares, não permitimos, lançando em uníssono um sonoro, imperativo e autoritário não. E pior, ninguém fez menção de se opor, embora a contrariedade nítida de alguns dos presentes. Não me perturbei por que, de dentro do caixão, meu avô não deu nenhum sinal de protesto, pelo contrário, parecia compreender o que se passava comigo e me dar seu aval e seu incentivo, orgulhando-se também de mim; talvez quisesse me dizer, Eu estou indo, mas permaneço em ti e em toda essa gente que agora se descabela aos prantos, assim como tu ficas, mas um pouco vai embora junto comigo, na verdade não passas de uma continuação de mim e vais passar por todos os incômodos que a vida reserva à nossa estirpe; talvez, quem sabe, ou talvez estivesse apenas estressado e quisesse simplesmente acabar com aquilo de uma vez por todas e descansar em paz. Assim, enterramo-lo, e por uma última vez tentei extrair de seu espírito e caráter um pouco das qualidades que me levaram a admirá-lo quando em vida.

    Repito: enterramo-lo, foi só isso o que fizemos e essa é uma das poucas certezas que tenho, mas as evidências teimam em me mostrar, apesar do meu esforço em não enxergá-las, que parece que alguém jogou mais alguma coisa na tumba. Nossa família nunca mais voltou a se reunir sem alguma ausência; quando meu avô dá um jeito de aparecer no almoço de Natal, com uma túnica branca totalmente fora de moda, é algum filho que não pôde vir, uma nora que foi à casa dos pais ou um neto mais jovem que fugiu entediado e foi pro fliperama. E então a nona chora, e chora sempre que ocorrem essas reuniões parciais de família, continua a chorar as mesmas lágrimas da noite do velório. Mais grave, não consegue ver que o nono está ao seu lado, comendo e bebendo com a mesma volúpia da década de 1980, tranqüilo, sorridente e orgulhoso da prole, piscando para mim com uma cara de malandro. Mas lá no fundo de seu inconsciente de morto sei que está um pouco preocupado: ele sabe que em breve não haverá mais ninguém em casa para recepcionar os convidados.

    7/25/2005

    IMPRESSÕES

    CARA,
     
    Fazia um tempinho que não sentia tanto prazer na leitura como agora. O livro é "ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", do Prêmio Nobel de 1998 José Saramago. O esquema é o seguinte: um motorista parado no sinal fica cego de repente, não de cegueira comum - é o começo do "mal branco", epidemia que logo se espalha e faz com que suas vítimas enxerguem apenas um "mar de leite" em suas órbitas. Daí para o caos social é um pulo. O autor ainda vai a fundo na análise do ser humano, aproveitando-se da transformação que ocorre com seus personagens, que da noite para o dia deixam de ser médicos, policiais ou o que quer que seja para serem cegos contagiosos isolados do mundo em um internato, sem qualquer auxílio ou respeito. Tudo isso com o estilo inimitável de Saramago, irônico, intrometido, inteligente, popular e erudito, econômico e prolixo, genial. Um calhamaço. Mas eu recomendo, com o perdão da piada, até de olhos fechados.