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11/2/2007

A MENINA DO CAIXA

A MENINA DO CAIXA

 

Esses dias, tive que ir ao mercado, coisa que tento sobremaneira evitar: corredores estreitos, pessoas se atropelando, disputando produtos supérfluos nas gôndolas, e, a cereja do bolo, filas. Fila para o pãozinho, para os salgadinhos entupidos de colesterol, umas delícias, fila na balança – pois é preciso comprar, e não só comprar, é preciso comer, ou pelo menos engolir frutas, verduras e assemelhados, foi a nutricionista que me disse – e, finalmente, a fila do caixa, a pior de todas. Eu realmente odeio filas.

Mas tive que ir ao mercado, fazer o quê. Não havia mais mantimentos em casa, não havia mais produtos de higiene e limpeza e, meu Deus!, não havia mais vinhos nem qualquer outro líquido potável. Então fui.

Fiz o que as pessoas normalmente fazem nos mercados e acabei na fila do caixa. Longa, como todas elas são. Suspirei e tentei relaxar, comecei a pensar no Campeonato Brasileiro, ah!, como seria bom se voltasse o mata-mata, pensei no meio-de-campo do Santos de 2002 e puf!, quando vi já era a minha vez.

Comecei a esvaziar o carrinho de forma bem tranqüila. (Abre parênteses: eis um lado sombrio do comportamento humano. As pessoas numa fila, eu e você inclusos, têm pressa até que chegue a sua vez de serem atendidas. No guichê, tudo é alegria, pasmaceira e lentidão, como se nada mais houvesse a fazer na vida depois daquilo. Fecha parênteses).

Pois bem, estava eu nesta pasmaceira quando percebi que a menina do caixa me olhava. Olhava, não: me fuzilava com os olhos. Um olhar de reprovação que nem meu pai jamais conseguiu elaborar, um olhar que me congelou na hora – mas que encarei e entendi. Eu, na lerdeza de cliente da vez, atrasava a fila.

Ah, é? É assim, é? Então é guerra! Comecei a despejar produtos alucinadamente no balcão, para ela ver com quem estava se metendo. Reparei, em meio ao exercício, que ela era miúda, fraquinha, os bracinhos finosfinosfinos, e pensei: tá no papo.

Enganei-me rotundamente.

Quanto mais eu acelerava, mais rápido ela passava os códigos de barra na leitora, bip!, e atirava os objetos para o empacotador que, coitado, esse sim se via em apuros. A insolente ainda tinha tempo de me mandar uns sorrisinhos diabólicos, vê se pode.

Reavaliei minha estratégia: comecei a jogar no balcão apenas os produtos de menor volume, para dificultar e provocar cansaço na minha oponente. E tome sabonetes e xampus e frios e sardinhas e giletes e etc. Deu certo. No final das compras, pude acumular os volumes maiores sobre o balcão, com ar triunfal. Venci.

Venci, mas não foi fácil. E não foi fácil porque ela, a menina do caixa, frágil, pequena, fraquinha, mostrou-se valente e audaz. Raçuda, como se diz no futebol. Eis a palavra: raçuda.

Assim foi também o nosso Esportivo, na Série C. Pequeno, desnutrido, sem apoio de torcida – quanto mais o financeiro - nosso Esportivo foi destemido, foi longe e nos encheu de orgulho. Perdeu, mas foi valente e audaz. Raçudo. Valoroso.

2008 vem aí e o alvi-azul terá novos dirigentes – boa sorte a eles -, novo planejamento e, quem sabe, ainda melhores resultados, que superem o “quase” do último Gauchão e da Série C. Que ninguém duvide disso. E que, ninguém duvidando, todos apóiem, cada um como puder, o nosso representante futebolístico. Ele faz por merecer.

1/29/2007

Site da FIFA - A verdade!

http://www.fifa.com/en/WorldLeagues/index/0,4643,128220,00.html?articleid=128220

Ao final tem esse trecho:

"...Inter emulated their local rivals Gremio, who won the same competition in 1983."

Traduzindo:
"...Eles igualaram aos seus rivais locais Grêmio, que venceu a mesma competição em 83."

O BRASIL NÃO PRECISA DO AVAL DE COLORADO NENHUM PRA RECONHECER SEUS CAMPEÕES, inclusive o Grêmio. Essa super valorização que tentam se dar (a conquista é merecida, indiscutível e devem curtir) não combina nem um pouco com a TENTATIVA de desdenho das glórias de quem reconhece a conquista do Inter. Parece puro rancor, uma mágoa encravada no coração de alguns colorados e alma colorada por ficar décadas à sombra das conquistas RECONHECIDAS do rival.

Esse discurso não combina com quem até então se revestia do manto protetor da humildade para defesa contra o rival opressor soberbo.


Créditos: Hugo - Comunidade Campeonato Brasileiro 2007
11/30/2006

TENTATIVA TEÓRICA - AS FASES DA BEBEDEIRA

É muito simples.
 
Os bêbados - nós - passam por diferentes fases durante seu processo de inebriamento. Sobretudo quando estão em grupo.
 
Primeiro, é a fase da euforia: a bebida desce como água, todos riem e parecem de bem com a vida. Todos falam ao mesmo tempo, talvez em duplas ou trios independentes. Alguns fazem um esforço comovente para parecerem simpáticos. Isso dura algumas garrafas, até que vem a fase dois.
 
Dois: nessa fase, o papo passa a ficar mais concentrado, com as pessoas gritando para se fazerem ouvir por todos. Alguns já nem conversam mais, apenas bebem. Contam-se piadas que sempre fazem sucesso, mesmo que não haja graça. É o sinal para entrar na fase seguinte.
 
Terceira fase: a conversa fica séria, grandes problemas sociais, econômicos e culturais são debatidos, e mais: soluções são apresentadas, sendo aprovadas em unânime na maioria das vezes. Mas há debates, controvérsias, como se fosse um animado simpósio. Citações filosófocas podem ocorrer, dependendo do nível cultural dos bebuns. Se for baixo, as citações variam entre Paulo Santana e Lasier Martins, entre outros.
 
Quatro: depois de concluírem que o mundo/país/estado/bairro/ponta-esquerda do time da rua não tem jeito, os bebuns, já devidamente embriagados a essa altura, deprimem-se. Passam a relatar, um por um, seus fracassos, suas decepções, sendo ouvidos com muita atenção pelos demais. Surge comoção e solidariedade. "Nunca passei num vestibular", "Sempre quis ter um Monza", "Nunca tive um canivete"...
 
Depois disso, normalmente as pessoas vão para suas casas, onde felizmente descansarão para não lembrarem de tudo isso. Por que,s e lembrassem, parariam de beber na hora.
 
9/28/2006

Abandono total

Puxa vida, tá mesmo abandonado isso aqui... Vai virar tapera. Três posts por ano não dá, né... Mas no fundo eu sabia q ia dar nisso. Saudações a todos!
6/21/2006

PUTZ! INVERNO!

Bah, já trocou novamente de estação e eu não postei nada - nada! - nos últimos três meses. E eis que chegou o inverno, companheiro inseparável do Rio Grande, trazendo consigo as roupas pesadas porém elegantes, as massas, os vinhos, o sono e os quilos a mais na balança. Isso merece um poema! Abraço a todos, e, antes que eu me esqueça: GRÊMIO CAMPEÃO GAÚCHO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! CADÊ OS DIAMANTES?
 

 

INVERNO 

 

A melhor parte do ano

Já passou

A melhor parte da vida

Já se foi

Envelheço

Enrijeço

Entristeço

Se pudesse eu pagar

Pagaria qualquer preço

Para ser do que sou hoje

O inverso, o avesso.

 

Sopra vento enregelante

Já geou

Chata chuva fina fria

Vai nevar

Zero grau

Zero vida

Absoluto

Todas flores se fecharam

Todas folhas já caíram

Toda vida meio morta

Todavia, sobrevivo.

 

Sem calor próprio

Sem amor próprio

Conservado pelo clima

E pela baixa auto-estima!

3/19/2006

FIM DO VERÃO

Último fim-de-semana do verão 2005-2006. É sempre lamentável despedir-se dessa estação, até porque o frio aqui é pra valer mesmo. Mas por outro lado, o inverno é parte essencial de nossas vidas. E tem seus aspectos bons, também. Fora que combina bem mais com o novo visual do blog, né?
 
Choveu muito sábado e domingo, que é hoje. Olho pela janela e não vejo mais os prédios da quadra vizinha: a neblina é densa e parece anunciar que o outono vem com tudo, e não apenas no calendário. 
 
Assim seja. E pra "comemorar" o fim do verão, adivinha... sim, um poema. Critiquem, por favor. Hasta la vista...
 
 
 

NOITE SERENA

 

Noite de quinta e ela se foi,

Serena.

Barzinho lotado, ela foi sem voltar-se sobre os ombros.

Mais um chope, um só mais, que sozinho não tem graça.

Céu estrelado, olhar distante...

Ela foi, pequena – bem menor que meu assombro.

 

Nuvens porém nos olhos.

As árvores na praça balançam,

Brincam?

Os ramos e as folhas.

 

Discutir a relação –  ramos e folhas desabam

Inda verde a maioria.

Entender-te eu preciso -

Calafrio me faz tremer,

É o vento que me esfria?

 

Palavras sem parada: tu te sentes deprimida,

Queres mais é liberdade

E aproveitar a vida.

 

Pequena sereia, que foi-se, serena como a noite.

 

Algo me diz que o verão acabou

Há menos de dez minutos.

3/12/2006

ETÍLICAS

Fechando um dos raros fins-de-semana em que não me emborrachei, uma homenagem ao álcool, meu companheiro de longa data.
Aos que me conhecem: não se preocupem, logo voltarei à ativa. Esse fíndi foi só um acidente de percurso...
 
 

ÉBRIO

 

Ando torto pelas ruas;

Horas nuas, madrugada.

De calçada em calçada

No encalço da lua;

No acender das luzes a contar estrelas –

Posso vê-las: cruzes, caras,

Gêmeos, grêmios mil.

Formas diversas, controversas,

Deformadas

Vítimas da mente febril

(a pureza é infantil).

 

A noite é o cenário do imaginário louco

Que pouco a pouco me distrai e

Dia a dia me destrói.

Eis um corpo que cai mas não dói

Um corpo bêbado estendido no chão

Eis um homem sem função –

Um homem ou um cão?

 

  

 

 

 

 

BÁLSAMO

 

No telejornal da manhã

Más notícias do Irã:

Bomba atômica.

 

A política econômica

Provoca recessão.

Preocupação: seca no Maranhão

E enchente na Bahia.

 

Meu chefe mal dá bom dia

E já parte pra cobrança;

A mulher reclama da criança

E proíbe-me o futebol

(Viva o colesterol!).

 

O sistema, essa droga de sistema

Toda hora dá problema

E não me deixa trabalhar

(E o tempo passa devagar, devagar...

Haja nervos pra aguentar!).

 

Mais um dia de pressão,

Todo dia essa pressão.

O mundo sem salvação

(Melhor nem ler a Veja).

 

Mas agora são seis horas

Nada vai me atrapalhar

Eu só quero é ir pro bar

Degustar minha cerveja!

3/7/2006

VERSOS PARA VOLTA ÀS AULAS

No ritmo de volta às aulas, minha indignação com o mecanicismo letivo e o império da decoreba. Aff!
 

 

 

VÍCIOS

 

Gramática.

Dramática.

Conselheira enigmática.

Esfinge de papel.

 

Quatrocentas páginas misteriosas como a morte.

E por que?

Ou será

Por quê?

Pouco importa o porquê

Porque importa o aprender (irônicas reticências).

 

Bom dia, Dona Norma,

Desprazer em conhecer,

Me desculpe pelos vícios.

Vai me devorar por causa duma próclise?

VERSOS CRIADOS EM NOITE DE INSÔNIA

PRIMEIRA VISITA

 

Era agosto de 80 e havia algo errado.

Tudo quieto, parado, parado...

Excessivamente normal.

 

Então decidi nascer –

Coisa muito natural –

Mas olha quem veio me ver:

Um anjo velho e caduco

Lindo, jeitão de maluco –

(O mesmo de Carlos Drummond?)

 

E disse-me o anjo com bafo de bira:

“Vai, guri, te vira,

Vai viver o que Deus te programa;

Vai que esse mundo te ama,e não pouco!

Mas por muito favor, por amor ao teu Criador,

Jamais!

Jamais deixe de ser um drama.

Jamais deixe de ser um louco!”

2/14/2006

Nowadays

nowadays

 

Como há gente fraca nesse mundo...

Gente que grita, bate, briga, late

Perde o controle num milésimo de segundo.

 

Estúpidos!

 

Gente sem argumento,

Gente mal-educada.

Gente moderna estressada

(Efêmera vida-inferno estressante).

Agridem a si e a tudo

Agridem a todos os outros:

Ao próximo e também ao distante.

 

É a lógica do filme de ação

A revolta da era do chip

É a nossa civilização

(mais parece um videoclip)

 

É o fim do que é racional

E da luta entre o mal e o bem

Só o primeiro é que resta afinal

Exceções muito raras se tem

 

Por favor, não grita comigo.

Calma, por favor, calma!

Eu também me enxerguei nesses versos!!

Calma, muita calma, e por favor,

Engole tuas angústias.

Esquece, ninguém está aqui pra te ouvir desabafar,

Eu não tenho a menor intenção de te ajudar, pára de gritar,

Reprime teus medos, esconde teus segredos,

Por favor,

Cala tua boca!

 

(A maldade é humana, “a humanidade é desumana”)

(A vingança vinga, a esperança desespera)

 

(O poema é uma bomba, não critica que eu explodo).

POETAR

POETAR

 

Se escrever é uma arte, então arteiro sou

Pois cometo minha escrita como quem apronta uma.

Arte feita, artefato de ousadia irresponsável

De criança que desponta e de adulto que se esconde

 

Refúgio do ego e palco do id

Quem escreve decide nem quem nem aonde

Quem escreve não sabe a matéria ou o tema

Quem escreve não é o escritor

Escritor é o próprio poema.

1/20/2006

POEMA DE SAUDADE

Esses versos nasceram de uma reflexão: hoje em dia, é muito mais fácil sentir falta de algo ou de alguém do que no século passado, e é tudo culpa da tecnologia. Provo.
 
Essas máquinas digitais, por exemplo: as pessoas tiram fotos alucinadamente, memória há sempre de sobra, depois salvam no PC e pronto - fotos e mais fotos e mais fotos para lembrar de momentos agradáveis que, inevitavelmente, não se repetirão. E assim é também com as filmadoras, os celulares e outros apetrechos que existem por aí.
 
Com o que se conclui que a tecnologia contribui muito para o sofrimento do homem do terceiro milênio, o que se pode comprovar com as caixas postais sempre lotadas de e-mails inúteis que nos levam à loucura.
 
Mas eu falava de outra coisa: a saudade. Sim, porque antigamente, sem os recursos avançados que ora conhecemos, o tempo resolvia uma grande variedade de problemas sentimentais. Isso devido à nossa memória, que vai desvalorizando aos poucos (mesmo que contra nossa vontade) as pessoas/fatos/sentimentos que nos perturbam, e o verbo perturbar aqui pode significar uma infinidade de coisas. Hoje, a memória é alimentada por esses instantâneos eletrônicos, sendo muito mais difícil ao homem livrar-se dessas amarras que o destino nos proporciona, às vezes.
 
Pra finalizar, uma confissão: esse assunto merecia mesmo era uma crônica. Mas quando tive a idéia de abordá-lo o relógio já avançava pela madrugada e meu braço doía por causa da digitação contínua do horário comercial. Assim, para chegar a um meio-termo, resolvi fazer um poema, coisa que até dá mais trabalho quando um verso insiste em não sair, mas exige menos esforço físico. Ei-lo, à espera das críticas de meus cinco leitores.
 
P.S.: Coisa chata e sem nexo é explicar poesia. Mas eu tinha que escrever isso. Vai entender.
 
 
IMAGENS
 
Eis que
Te vejo a sorrir.
Pronto!
Num passe de mágica, tudo volta:
Pobre de minha memória!
Pobre memória que,
Ativada, te elogia.
 
Sorrio por dentro, feliz-infeliz,
Sorrio por dentro mas algo me diz
Que devia chorar, na verdade.
E logo em seguida sou só saudade,
Assim todo dia, assim todo dia...
 
Por que remexo nesses arquivos?
Maldita memória que me auto-denuncia!
 
Maldito seja o inventor do videotape.
Maldito seja quem criou a fotografia.

ESTRÉIA

Sexta-feira, antevéspera do primeiro jogo do Grêmio em casa no ano de 2006.
 
Bah, esse ano meu gremismo está no ápice: pré-temporada aqui em Bento, incluído aí um amistoso - privilégio -, Grêmio Mania a mil (comprei a minha,é claro), e agora me associei ao tricolor!
 
Depois de amanhã faço a estréia da minha carteirinha! E logo contra o Esportivo, time da minha cidade. Que beleza! A propósito: o Esportivo que me perdoe, apóio, gosto do time, vou a campo torcer e tudo, mas o amor pelo Imortal é insuperável.
 
O que me incomoda é um bando de gremista que só vai ao Olímpico em jogo "grande", como se um campeonato fosse feito só da fase final. A eles, eu digo:
 
VÃO SE F****, GREMISTAS DE MENTIRA! LUGAR DE TORCEDOR É NO ESTÁDIO! TODOS AO OLÍMPICO, P***!
 
Só perdôo os que moram muito longe de Porto Alegre.
 
Em tempo, uma piada.
 
P: Sabe o que o colorado vai fazer quando ganhar a Libertadores?
R: Desligar o Playstation!
 
hauahuahuahauhauahuahuahuahuahuahauhauahuahuahauahuahuahuahauhaua!
 
Saudações tricolores!
 
 
1/8/2006

Breves considerações seguidas de versos

Pois é, ficar em casa num sábado à noite de alta temperatura só podia dar nisso: versos deprê. O legal é que escrever coisas down não me deixa deprimido, pelo contrário: é um ótimo passatempo, muito lúdico, ainda mais se comparado ao Supercine.
 
Parece que estou me justificando, né? Pois bem, acho que estou mesmo, já que acabei não gostando muito do resultado final. Não cheguei a achar ruim, mas esperava produzir algo melhor. Acho que o calor me atrapalha. Ou seria a cerveja? (A falta dela, no caso)?
 
Bom, quem tiver disposição, leia - meu público médio são cinco leitores - e opiniões/comentários são sempre muitíssimo bem-vindos, especialmente se for pra criticar, OK? Afinal, preciso, um dia, aprender a escrever direito.
 
 
 
 

SOLO

 

Eu gosto da solidão.

Na janela escancarada

O vento da madrugada;

Cigarro, cinza, cinzeiro

E um livro por companheiro.

(desligo a televisão)

 

Etílica solidão.

A noite tem cheiro de vinho

(a noite de quem é sozinho

transforma-se sempre em bebida)

A noite de toda uma vida:

Alcoólica solução.

 

Eu fico com a solidão

Eu vivo minha loucura

Eu fico com meu violão

Eu vivo literatura 

Eu vivo na solidão

Como se fosse normal

(se é que o normal existe).

Eu gosto da solidão

Adoro sentir-me mal

E amo sentir-me triste.

 

Eu gosto da solidão

E dessa melancolia

De minha vida inativa.

Degusto a solidão

Com sua sensaboria

E falta de expectativa.

 

Só resta-me a solidão.

Eu fico na solidão

Muito mais do que gostaria.

Eu fico na solidão

E não ficar não poderia:

Eu fico na solidão

Pois não tenho alternativa!

12/26/2005

Mais poesia

Fim de ano, fortes emoções no ar e na alma (não só por ser fim de ano, claro), resultado: alta produtividade de poeminhas bregas. A exemplo dos últimos, segue mais um emocionante melodrama versificado:
 
 
 

SENTIDOS

 

As coisas que tenho pra te dizer

Não cabem num telefonema.

Quem dera coubessem num verso,

Numa estrofe ou num poema.

 

O que sinto não tem síntese:

Deve ser dito, redito,

Bem dito.

O silêncio é a antítese

Se o que se sente é bonito: (aflito-bendito-infinito)

 

Por isso é que te digo

Por isso é que te repito:

O que tenho a te dizer

Não cabe num telefonema,

Numa peça de teatro ou de cinema.

O que tenho a te dizer não cabe

Num transatlântico,

Nem no Índico

Nem no Pacífico.

 

Mas mesmo que devagar,

(Repetindo, parando,

Te ouvindo),

Basta agora começar

Que haverá uma saída.

Pois o que tenho pra te dizer

Certamente há de caber

No resto de nossa vida.

12/21/2005

Mais versos

THE END

 

No fim da jornada

Um erro. Derrota.

Ao grande idiota

Já não resta nada.

 

No fim do caminho

A ponta da lança

(o coração cansa

e perece sozinho).

 

No fim disso tudo,

O nada.

O enfado.

O entediado e triste fado

De desamor

Com gosto de quase,

De dia encoberto.

Um quase tão certo

Que amarga o sabor

(pois foge quando tão perto

o prêmio do vencedor).

 

Mas certezas, quem procura sempre as encontrará:

Certeza, agora, inda há

A de que nada voltará a ser

Como outrora -

O sonho jogado fora

Em troca de vã promessa!

 

Eu sei que a hora é essa!

Não posso mais me deter!

Não há mais o que fazer -

Daqui estou indo-me embora!

12/15/2005

UM POEMINHA ROMÂNTICO (BREGA, EU DIRIA) - E POR QUE NÃO?

DIFERENÇA
 
Aqui uma saudade.
Aqui um vão.
Toda noite em vão contigo sonho.
Sonho vivo que tu és
Que não vivo
Vivo em vão.
 
Tu oceano, eu grão -
Eu com Morfeu: nós: ficção.
 
Mas meu sonho um dia
Acorda e descansa
 
Aqui uma esperança,
Aqui uma saudade.
Tu és realidade...
 
Eu não.
11/16/2005

CRISE DE IDENTIDADE

Sinceramente, não gosto muito desse poema. Acho adolescente demais. mas às vezes bate essa sensação mesmo, fazer o quê... Então, aí vai:
 

EU OUTRO

 

Cansado, sem sono e só

Perdido na noite outonal

Reviro gavetas em busca

De algo que já virou pó.

Procuro algum ideal

Daqueles que outrora já tive

Um algo qualquer que me diga

Que o mesmo em mim inda vive.

 

Cadê o garoto de idéias e planos

Cadê os meus curtos anos

De efervescência,

Cadê minha adolescência

Cadê, a mim mesmo reclamo.

 

Pois que assim transformado

Não creio haver melhorado:

Se hoje mais bem-resolvido

Também mais entristecido,

Adulto agora me chamo.

 

Um homem completo é o que vejo no espelho

Um homem ficando velho

Um homem que não conheço;

Mas outro é o que não esqueço -

O adolescente que amo.

10/5/2005

MAIS VERSOS

INSÔNIA

 

Os bons dormem serenos

Na última noite de inverno.

O vento os embala, bem menos

Gelado, já menos, já menos, mais terno.

 

Os bons sempre dormem sem dor.

 

Mas eu, encurralado por

Uma avalanche de memórias

(memórias memórias memórias memórias)

 

Confusas

Contentes

Culpadas

(contraditórias)

Eu, de repente dormindo,

Logo em breve desperto,

Eu, pleno frio, descoberto

De mim mesmo, por

Mim mesmo

Descoberto, dor

Mim mesmo

Descoberto desdormindo,

Eu, chorando-sorrindo sorrindo-suando

De olho fechado

Rosto fechado

Olhos abertos

Eu, frio, descoberto,

Eu:

 

Não quero.

Não posso.

Não devo.

(esqueça!)

Não posso não posso não posso não quero.

Não devo.

 

Mas lembro.

 

{Lembro lembro lembro durmo lembro lembro lembro durmo lembro}

Durmo durmo

Lembro

 

(O primeiro dia da primavera nasceu).

O inverno se foi... mas e eu?

10/4/2005

DIÁRIO DE UM TURISTA

Explicando: pra quem não sabe, o pessoal que vai sempre na Geral do Grêmio apoiar o tricolor (os ditos "de fé") chamam de "turistas" os que não vão toda a hora. Então, resolvi ironizar, porque tem gente que acha que nós, do interior, somos menos gremistas que eles. Mas não vamos generalizar.
 
DIÁRIO DE UM TURISTA
 
8h30min: Supermercado, comprar balões e cerveja.
 
9h: troca de roupa. Camisa e touca do Grêmio (pode esfriar à noite, quem sabe?).

9h30min: concentração na praça.

9h50min: Saída rumo ao Monumental.

10h50min: A bira trincando de gelada, declaro que não aguento mais e ataco a primeira. Ofereço aos demais. Laércio, Diego e Nei não se fazem de rogados e me ajudam a consumir o líquido louro.
 
11h15min: cerveja no café da manhã pega fácil e provoca o alento. "Somos campeões do mundo..". Já somos o comentário do bus.
 
11h45min: parada para o almoço. Na saída, por precaução, reforçamos o estoque de cerveja.

13h30min: chegando a POA, a adrenalina sobe e os cânticos aumentam. As crianças e adolescentes do bus nos ajudam a cantar e imploram a seus pais que os deixem ir conosco na Geral. Tomamo conta do bus.
 
13h50min: ingresso na mão, rumo ao Bar Preliminar, bem em frente ao estádio. Lá, encontramos mais guaporenses borrachos, que tinham ido de carro. Começamos a alentar e o bar todo nos acompanha. Afudê. E dale trago.
 
15h: indo pro estádio, com bandeirão e cantoria forte, chamamos a atenção de uma câmera de TV. Paramos na frente da lente e logo junta uma galera cantando junto. Tri afu.
 
15h15min: entrada no estádio. Pelas próximas duas horas, é só grito e alento, com direito a avalanche civilizada e a xingar quem não canta. Descubro que gritar "quem não canta é colorado" funciona. Os mongolóides criam vergonha e começam a cantar.
 
18h: o jogo acabou, mas ninguém sai. A música da vez é "Somos campeôes do mundo", 15 minutos direto, e até os jogadores reservas que não entraram na partida cantam junto. Fantástico. A imprensa não sabe mais o que fazer perante a emoção/alegria/poder da Geral: têm que nos engolir.
 
18h30min: finalmente saímos do Olímpico, atrás dos bumbos. O pessoal da excursão está todo nos esperando em frente à Grêmio Mania. Atrasamos tudo, mas não tamo nem aí.

Seguimos cantando pelas calçadas e a galera que copa os ônibus nos acompanha.

Na viagem de volta, quem diz que parou o alento? Pena que acabou a bira.
 
22h30min: chegamos a Guaporé, exaustos, meio bêbados e totalmente roucos. Mas felizes. É bom ser gremista!
9/27/2005

Crônica

NA CALÇADA

 

Tu tá andando na calçada. Apressado, como sempre. Como sempre, de terno escuro. Pastinha executiva, sapato social, óculos escuros e relógio analógico. Tudo normal.

Faz calor. E tu sofre. Sua. Quer apertar o passo, mas suaria mais do que passista na avenida, sem falar no fôlego, que já não é essas coisas, apesar de tua pouca idade.

Tu tá andando na calçada, apressado, e, atenção!, tu não vê?, tá faltando uma lajota bem na tua frente, há um buraco, tu não vê, e pisa. E pisa mal, e torce o pé direito, e te desequilibra, aí tu tenta de toda maneira ficar ereto, ou pelo menos não cair – nem tanto pela queda em si, que não seria de todo má, porém há muita gente na rua a essa hora, imaginem o fiasco, e tu luta pra não cair -  e tu cai. De muito mau jeito. A cabeça no meio-fio. Sangue.

Sangue. Muito muito muito sangue. Tu vê teu sangue escorrendo pela sarjeta, e quase não crê. Tu tá morrendo. Tu, o grandessíssimo tu, o melhor dos melhores, agora tá morto.

Tu olha pras pessoas ao redor de ti, curiosas, bobas quase. Todos querem te ver mais de perto, tu é a grande atração da rua, mais até do que a liquidação das Lojas Americanas. E tu já não tem mais o que fazer, a não ser olhar e pensar, olhar, pensar e esperar...

Tu gostaria de gritar pra todas essas pessoas que isso não podia ter acontecido logo contigo, self-made man, que te preparou toda uma vida para... o que mesmo?

Tu lembra, e gostaria de contar pra todo mundo, a ralação que foi tua infância, o pai bêbado, violento, a mãe sempre meio doente, e tu, filho único, vendedor precoce de picolé, enquanto os colegas jogavam bola. Aluno aplicado e exemplo de boa conduta, e os pais nem pra retirar o boletim.

Na adolescência, tu passou a estudar à noite e trabalhar de dia no laticínio, praticamente mantendo a casa e sempre cheio de privações. Tu lembra, não é? Lembra também da morte do pai, cirrose, e da tua aprovação no vestibular na federal, Direito,direto, sem cursinho, na mesma semana.

Tu jamais esqueceu da época da faculdade, da tua miséria em meio aos carrões dos colegas, tu digitando os trabalhos deles pra ganhar algum, tu em casa, sem grana, absolutamente todos os fins-de-semana, estudando, estudando, estudando... E vendo a mãe a cada quatro meses.

Formado, passou, lembra?, a advogar num escritório de médio porte, e em pouco tempo virou um dos profissionais mais respeitados da capital devido ao teu conhecimento, humildade e dedicação.

Finalmente, tu começou a ganhar algum dinheiro, até carro já tinha – popular, mas e daí? – até as mulheres já te olhavam, tu já tinha lazer e visitava a mãe quando bem entendesse.

E aí...

Um defeito na calçada, desequilíbrio, queda, a cabeça no meio-fio.

Chega uma ambulância e os caras te pegam e te põe na maca. Acomodam teu corpo de modo que teus olhos foquem na praça, que fica aí na outra esquina. Lá tem um menino jogando bola sozinho, vibrando com se fosse a final da Copa. Tem adolescentes andando de skate, uns, e paquerando as meninas, outros. E lá também tem um grupinho de estudantes, com os livros nas mãos, porém rindo, conversando, se abraçando, felizes.

Tu vê tudo isso. Tu pára, finalmente, pra pensar.

E começa a se arrepender de não ter morrido antes.

POEMAS DE TRABALHO

UM ACRÓSTICO

 

Todo dia, todo dia

Rotina robótico-repetitiva:

Acorda

Bate o cartão

Assina teu ponto

Labuta, sua, luta, faz

Horário extra, ordinário! Pronto:

Outro dia após o outro.

 

 

 

 

GRATIFICAÇÃO

 

Sem trabalho que se é?

Que se tem sem ter trabalho?

Muito pouco, quase nada

Pois se é o que se faz.

 

“Sem trabalho não sou nada

Não tenho dignidade”,

Pois se o corpo está parado

Na cabeça não há paz.

 

Meu trabalho me consome

Mas meus sonhos de consumo

Me conduzem sempre avante:

Homem cem por cento aço

 

O trabalho às seis se encerra

Eu só quero ir pra casa

Encontrar quem lá me espera

Encontrar-me em teu abraço.

 

Inspirado em “Música de Trabalho”, de Renato Russo.

 

9/13/2005

POEMA BOBINHO PARA SEMANA DE CHUVA

DIA DE SOL

 

Nuvens negras, vão embora

Por favor desapareçam

Do azul de minha terra.

Vão embora, nuvens negras

Vão embora por favor

Nessa tarde que se encerra.

Negras nuvens, dêem tempo,

Trégua ao choro que se vem

Derramando desde quinta.

Dêem tempo, dêem espaço

Para a luz e o sorriso

Que mais bela a vida pinta.

 

Venha logo, astro-rei

Para afugentar o cinza,

Aquecer os corações,

Para iluminar a alma

E secar as avenidas.

Todo o sábado precisa

Da presença de você.

Venha logo, astro-rei

Para tudo transformar:

O dia, o céu, as gentes.

Todos, todos eles querem

Todos eles querem muito

E definitivamente

Um dia de sol.

8/30/2005

A Jornada do Brasil Bom

Cara, semana passada estive, pela primeira vez, na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Incrível. Bem preparado que eu estava, ainda assim me impressionei com a grandeza do evento. Milhares e milhares de pessoas, falaram em cerca de vinte mil, vindas de incontáveis cidades, do Rio Grande, do Acre e da Bahia, do Paraná, de São Paulo e do Rio, de todos os cantos do país, reunidas para discutir literatura. Isso é positivamente inacreditável, acho que só no Brasil mesmo. E discutir literatura com quem? Ora, com gente de renome internacional e com imortais da ABL: J. Gaarder, J. Ubaldo Ribeiro, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola Brandão, Chico Buarque, Ana Maria Machado, outros menos conhecidos do grande público, mas igualmente brilhantes, como Alcione Araújo, Júlio Diniz, Nelson de Oliveira e Luiz Vilella, e ainda intelectuais não diretamente ligados à literatura, como Werner Schunemann, Lobão (que conseguiu uma foto comigo, notem), Walmor Chagas... (ufa!). Sem falar dos doutores e PhDs vindos de Brasil, França, Itália, Espanha e Portugal. Uma maratona de cursos, debates, palestras, oficinas, shows, apresentações teatrais, comunicações, exposições, sessões de autógrafos, entrevistas, seminários...
E crianças, muitas crianças, de inumeráveis escolas de toda a região. Crianças brincando, correndo, comendo, bebendo, ouvindo, falando, pedindo autógrafos, ajuda e informações, lendo e comprando livros.  Essa parte, aliás, também excelente: havia desde as edições de luxo, grandes, brilhantes e com capa dura, até as ofertas nos sebos por quinze, dez, cinco e até três reais (adivinha se eu resisti a elas...).
Em suma, a Jornada é um belo exemplo de Brasil. Representa um Brasil que funciona e dá certo. Um Brasil inteligente, bem planejado, organizado. Um Brasil intelectual, mas não elitista, um Brasil democrático e culto, charmoso, cosmopolita e consciente. Um Brasil sem Brasília, sem partidos políticos, sem mensalões e sem gente inescrupulosa. A Jornada de Literatura é o ícone da utopia brasileira possível, possível porque já existe, de dois em dois anos, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul.
 
Longa vida à Jornada Nacional de Literatura!
8/19/2005

Um poeminha pra vocês

LIBERTAS

 

Eu não quero a liberdade dos homens.

Eu não quero a liberdade dos homens.

 

Essa toda maquiada

Escondendo-se de quê?

Eu não quero liberdade de terno

E gravata, ainda que tardia,

E relógio quadrado de ponteiros dourados.

 

Eu não quero. Eu não quero.

 

E também rejeito a liberdade

Em prisão domiciliar

Eu não quero me casar

Eu ão sou propriedade.

Eu preciso trabalhar

É honroso trabalhar, mas melhor

É a liberdade.

 

Eu quero a liberdade de correr.

Eu quero a liberdade de brincar.

Eu quero a liberdade de gritar, louco, louco,

 E de tomar banho de chuva e brigar jogando bola.

Eu quero a liberdade livre, de ser feliz,

Existir.

Eu quero a liberdade, não a dos homens.

 

Eu quero a liberdade das crianças.

 
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